Reflexão sobre o termo “acidente”

08/02/2017

Por Grupo de Pesquisa em Trânsito e Transportes Sustentável*

Há pouco tempo, fomos todos impactados pela trágica morte de uma jovem equipe que estava voando em busca de seus sonhos. A queda do avião que transportava o time da Chapecoense, jornalistas e convidados foi um acidente? Por que ocorreu? Não temos como trazê-los de volta, mas podemos homenageá-los refletindo sobre o emprego do termo “acidente”. Antes que este evento, como tantos outros, caia no vale do esquecimento, cabe perguntar, mais uma vez, foi realmente um acidente?

No ocorrido com o time da Chapecoense, como na maioria dos denominados acidentes, em especial aqueles referentes ao trânsito e transportes, há como identificar as causas que os provocaram. Na queda do avião da LaMia, indícios apontam que a falta de combustível, as falhas no planejamento do voo ou até mesmo na comunicação com a torre de controle podem estar na origem do ocorrido. Por qual razão então, falar em “acidente”, ao invés de “queda de avião”? Foi realmente um acontecimento “casual, fortuito, imprevisto”, ou algo perfeitamente previsível e, mais importante, evitável?

Quando algum evento dessa natureza acontece, investiga-se os fatores que podem ter sido a causa ou verificam-se as responsabilidades pelo fato ocorrido. Esse esforço de compreensão do episódio (nesse caso, a queda do avião) deve-se ao fato de acreditar-se que não foi obra do acaso. Logo, não foi acidente!

Traçando um paralelo com o que vemos diariamente no trânsito das cidades brasileiras, será que os acontecimentos cotidianos que chamamos de “acidentes de trânsito” não deveriam ser chamados do que de fato são: colisão (decorrente de impaciência, por exemplo), batida (decorrente de imprudência, por exemplo), atropelamento (em desrespeito às regras do trânsito, por exemplo), ferimentos (provocados por falta de cortesia, por exemplo), engarrafamentos (em consequência de falha na manutenção do veículo que resultou numa avaria, por exemplo)? Denominar e descrever os acontecimentos de maneira acurada, ao invés de usar um termo neutro, não implica em um prejulgamento. Ao contrário, mantem a porta aberta para uma investigação aprofundada e necessária, capaz de reduzir a probabilidade de repetições futuras.

Não estamos afirmando que acasos não possam acontecer, mas será que falar em “acidente” virou uma espécie de calmante para as vítimas e suas famílias (“foi um acontecimento infeliz”) e uma espécie de esquiva para os responsáveis (“não queríamos que isto acontecesse”)? Ou, ainda, uma espécie de bandaid para a sensação de desemparo que vivenciamos quando nos deparamos com mais um desastre, mais um sinistro, mais um absurdo que todos sabemos que poderia e deveria ter sido prevenido e, consequentemente, evitado?

Uma investigação aprofundada sobre as causas dos ditos “acidentes” apontaria para leis de trânsito não promulgadas ou amenizadas por conveniência pessoal e populista. Sabemos (porque há pesquisas que assim demonstram) que uma redução da velocidade máxima invariavelmente salva vidas; que faróis ligados durante o dia reduzem a chance de colisão; que as mais de 43.000 mortes ocorridas no trânsito brasileiro em 2015 não somente constituem uma epidemia, mas, com a devida atenção e o devido investimento por parte do poder público, talvez pudessem ter sido evitadas. A lista é interminável – então, o que está faltando: dinheiro, vontade?

Ainda sobre as causas dos “acidentes” de trânsito, uma investigação aprofundada apontaria o descaso na construção e na manutenção das vias. Sabemos (porque há pesquisas que assim demonstram) qual a largura adequada para que as vias sejam mais seguras; qual o raio e a inclinação de uma curva segura; quais as características de uma calçada de qualidade; quais as características de boas sinalizações viárias; quais as características das ciclovias seguras. A lista é interminável – então, o que está faltando: dinheiro, vontade?

Uma investigação aprofundada apontaria, ainda, o descaso na construção e na manutenção dos veículos, sejam estes bicicletas, motocicletas, carros, ônibus, caminhões. Sabemos (porque há pesquisas que assim demonstram) quais os requisitos para que um veículo seja seguro para o condutor; quais os requisitos para que um veículo seja seguro para os passageiros, especialmente para as crianças; quais os critérios necessários para que  ônibus, caminhões, carros de passeio poluam menos; quais os intervalos mínimos para realizar revisões nos veículos. Mais uma lista interminável – então, o que está faltando: cobrança, dinheiro, vontade?

Por fim, uma investigação aprofundada também mostraria que, independente do (des)preparo das pessoas que, de uma forma ou outra, têm envolvimento em uma dada colisão, ações de educação e de orientação sobre como comportar-se no trânsito podem não ser tão eficientes. Cabe inicialmente ao poder público fazer a sua parte e dar exemplo: promulgar leis apropriadas, implementá-las e fiscalizar o seu cumprimento, oferecer vias e veículos construídos com qualidade e com a sua manutenção assegurada e constantemente exigida.

O sentimento de desamparo diante da omissão do poder público no que diz respeito às condições de trânsito sem dúvida é um (se não o principal) fator de desrespeito às regras de boa convivência nas vias e às leis do trânsito. Da mesma maneira que leis e regras advêm do Estado, as condições para poder segui-las dependem do poder público.

Da mesma maneira que a queda do avião não foi um acidente, as mais de 43.000 mortes no trânsito registradas, oficialmente, no Brasil em 2015 não foram consequência de “acontecimento casual, fortuito, imprevisto”.

Assim, por meio dessa breve reflexão, deixamos aqui nossa singela homenagem às 71 vítimas da queda do avião da Chapecoense, às suas famílias, aos torcedores do time, aos milhões de fãs de futebol ao redor do mundo que, como nós, se comoveram com essa enorme tragédia. Da mesma forma, homenageamos todos os mais de 43 mil mortos no trânsito brasileiro (somente em 2015!), além daqueles que sofreram sequelas em decorrência de “acidentes” sofridos no trânsito.

Por fim, em respeito a todos nós, cidadãos, participantes do trânsito brasileiro, pedimos seriedade, investimento, enfim, respeito. Precisamos deixar de usar o termo “acidente” e assumir de vez que evitar que essas tragédias aconteçam depende em grande parte do maior comprometimento com a vida humana.

É inadmissível que tantos sonhos – como os dos atletas, comissão técnica e jornalistas a bordo deste avião – e os dos milhares que morrem diariamente em nosso trânsito sejam destruídos em situações que poderiam ser evitadas.

Para não precisarmos derramar mais lágrimas pelos sonhos que foram enterrados, vamos assumir: não foi acidente!

*Membros do Grupo de Pesquisa em Trânsito e Transportes Sustentável, registrado no Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq):

Hartmut Günther, Prof. Emérito – UnB
Alessandra Bianchi, Profa. Dra. – UFPR
Ingrid Neto, Profa. Dra. – UDF
Layane Silva, Psicóloga do Trânsito, mestranda em psicologia UFPR
Marcelo Honda Yamamoto, Psiquiatra, mestrando em psicologia UFPR
Sandra Martins, Psicóloga do Trânsito, mestranda em psicologia UFPR
Talissa Correia, Psicóloga do Trânsito, mestranda em psicologia UFPR

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